DENUNCIE O FASCISMO BRASILEIRO QUE ESTÁ ATUANDO NAS INSTITUIÇÕES DE ESTADO COMO RIO DE JANEIRO
Desenvolvimento, conceito atual
Eliane Colchete
===
Na década de oitenta do século XX, o desenvolvimento foi redefinido, e assim também naturalmente o "subdesenvolvimento".
Até então vinha valendo uma conceituação que admitia três estados em função de um conjunto de itens que definia o desenvolvimento como um deles, a partir do que se considerava o modelo do progresso social, político, tecnológico, militar e econômico, as nações do “primeiro mundo”, as potências capitalistas “ocidentais” (Europa e USA). Todos os tópicos se arrolavam conforme a um só imperativo, o estado da industrialização avançada.
Os outros dois estados seriam o subdesenvolvido e o em desenvolvimento, conforme estivessem as nações respectivamente muito ou pouco afastadas do estado apresentado pelo modelo.
Essa conceituação vinha valendo aproximadamente a partir dos anos quarenta, portanto desde o pós-guerras, correspondendo a duas ordens de fatores. Por um lado a necessidade da política estadunidense chamada de “exportação de capitais”. Esse investimento traduzia-se como empréstimos dirigidos a países julgados em condições de recebê-los como ajuda para industrializarem-se. Por outro lado, aquilo que qualificava propriamente o grupamento dos fatores que entravam na conceituação do modelo desenvolvido. Nessa época estava se consolidando a hegemonia norte-americana, mas por outro lado a da União Soviética em se tratando dos países que emergiram das duas guerras mundiais como comunistas. A bipolaridade dessas duas superpotências implicava a supremacia do item “militarização” sobre a avaliação dos fatores do desenvolvimento, junto, é claro, ao que o ancorava como a superioridade econômica.
Assim vemos que o subsequente às duas guerras não foi um período pacífico. Foi o cenário da “guerra fria” e da “corrida armamentista” entre URSS e USA, mas o que isso significa propriamente são as ações diretas ou indiretas das superpotências no quadro das guerras pela descolonização que em Ásia e África estavam movendo os “movimentos de libertação nacional” contra o domínio das antigas potências europeias, que agora estavam mais ou menos dependentes da economia norte-americana. Especialmente no Sudeste Asiático, a China comunista também tem um papel histórico importante no cenário destas guerras, disputando com a URSS a influência em alguns casos de nações que pugnaram pela libertação nacional sob o impulso da doutrina marxista. Os USA intervieram maciçamente para evitar que as nações saíssem independentes sob esse impulso, mas não conseguiu evitar várias vitórias, como exemplarmente a do Vietnã.
O ônus da participação norte-americana nesse sentido não foi muito leve. De fato, forma uma das páginas mais negras do imperialismo, mas o que decorreu foi a perda da confiança que os intelectuais norte-americanos da geração dos anos quarenta e cinquenta acalentavam no modelo interno. Como se expressou Rorty em Achhieving our country, nessa época os intelectuais acreditavam piamente que os USA tinham a missão histórica de evitar que o despotismo stalinista se alastrasse pelo mundo.
Contudo, nos anos setenta, a falácia de que a guerra do Vietnã tinha essa justificativa foi plenamente demonstrada como tal. Daniel Ellsberg apossou-se de um dossiê levantado pelo Pentágono para apurar a verdade sobre o que ocorria no Vietnã, documento que revelou serem as forças que lutavam contra o despotismo local realmente libertadores, ao contrário do que os presidentes vinham apregoando. Os vietnamitas estavam lutando contra uma ditadura farisaica, brutal, e não tentando impor um stalinismo fascista sob as escusas do comunismo.
Em entrevista a Paulo Francis, Ellsberg declarou que ele mesmo havia sido até aí um crente no sistema americano como defesa contra o stalinismo. Como intelectual, participara da Rand Corporation, um “think tank”, isto é, uma associação de pessoas inteligentes solicitadas a formularem conjuntamente propostas e soluções para problemas ou projetos. Agora denunciava a Rand Corporation como um dispositivo cujos projetos abrangiam nada menos do que a premissa dos USA obterem o domínio sobre todo o terceiro mundo.
Essa designação “terceiro mundo” valia na época como o referencial dos países não-desenvolvidos, isto é, subdesenvolvidos ou em desenvolvimento. Em geral são as nações que foram antes colonizadas pela Europa, assim como a América Latina. Caracterizam-se pela dependência econômica ao capitalismo desenvolvido, ou seja, não são industrializadas. Mas a designação surgiu propriamente na guerra-fria, para abranger as nações que nem eram do primeiro mundo industrial-capitalista, nem do segundo mundo industrial-comunista. Ou seja, o espaço que as superpotências disputavam como zonas de sua influência.
A história do terceiro mundo mostra que essa condição negativa, de ausência da industrialização autônoma, não é fruto da passividade local, mas da atividade concertada das potências europeias, e depois dos USA, que necessitam da dependência para manter o nível de sua industrialização acima da simples consumação interna. Isto é, em nível de empreendimentos “multinacionais”. A economia típica de uma nação do terceiro mundo é concentrada na exportação de matérias primas, agrícola ou mineral como fonte energética, geralmente havendo um produto mais importante que os outros. Essas matérias primas são exportadas para uma potência central (desenvolvida) que em troca de garantir a compra, contudo assegura o compromisso da nação exportadora importar por sua vez os seus industrializados.
Como a matéria prima é barata e os industrializados são caros, há sempre uma defasagem interna nas economias do terceiro mundo, traduzindo-se nas piores deformações sociais como de extrema desigualdade de uma casta privilegiada sobre uma imensa maioria da população, e o que as torna ainda mais dependentes dos insumos da economia central. A esse círculo internacional se designa imperialismo, o que implica que a independência política do terceiro mundo nada vale diante dos quadros impostos de sua dependência econômica.
Porém a condição do terceiro mundo como de não-desenvolvimento implica o esforço teórico de todas as disciplinas responsáveis pela formulação dos conceitos principais, histórico-psico-sociológicos para ser conceituada. Pois todas essas disciplinas conceituam, essencialmente, o status da “consciência de si” desenvolvida. Elas pressupõe portanto que a mentalidade que norteia a legislação das sociedades liberais, cujo princípio é o Sujeito e não a pertença a grupos de privilégio, é característica do progresso histórico, não constante nas sociedades que não apresentam esse requisito básico da constituição liberal, ou seja, o legislativo independente que representa racionalmente a população em sua heterogeneidade como nível público da convivência.
A condição do desenvolvimento é portanto também a que secunda todo diagnóstico médico-jurídico da normalidade do adulto. Assim a condição do subdesenvolvimento implicou sempre a necessidade de se estipular como anterioridade na formação do
Sujeito normal das sociedades modernas. E isso uma vez que desde a psicologia moderna, compreende-se que o Sujeito se forma ao longo de um processo infantil que abrange fases, até o ego se consolidar como realidade plena.
Essa não é uma teoria apenas psicanalítica, mas uma premissa geral que une a psicologia às premissas da antropologia social, como se pode ver com Wallon. (A formação do caráter na criança, A consciência e a vida subconsciente). Em geral é em que se pode caracterizar historicamente como decorrendo do campo de pesquisas de que nasceu a "psicopatologia".
Desde a segunda metade do século XX até agora, porém, o estruturalismo lacaniano tem sido um referencial bem estabelecido para as controvérsias a propósito, e é o que trataremos aqui, mais à frente, na verdade tratando-se do escopo deste escrito examinar.
Aqui vemos um descompasso notável nas políticas do terceiro mundo, pois ao mesmo tempo que não-desenvolvidas, o compromisso econômico social dessas nações com o círculo internacional do capital implica que elas devem estar se modernizando ao manter a escala de importação industrial-cultural do Centro. Elas importam portanto o modelo político-social do desenvolvimento, e todo aparato legislativo local se pauta pelos mesmos diagnósticos de normalidade que vige nas nações “centrais”.
A situação do terceiro mundo se mostra sui generis. Por um lado, ao se tornar importadora dos produtos industriais-culturais do Centro, ele estaria se industrializando e modernizando. Por outro lado, todas as suas tentativas de realmente se industrializar de um modo coerente aos interesses nacionais foram dramaticamente impedidos pela força, por parte dos países centrais. O mais recente lance desse confronto, que vem desde o século XIX pela hegemonia inglesa na América Latina e adentra a primeira metade do século XX com o neocolonialismo afro-asiático, tem sido protagonizado pelos USA.
A política de exportação de capitais foi demonstrada por vários estudos, especialmente o de Romanova (A expansão econômica dos Estados Unidos na América Latina), extremamente lesiva ao interesse local. Vários contratos foram demonstrados dotados de cláusulas abusivas, que tornavam o montante dos empréstimos de valor praticamente nulo devido aos compromissos exigidos em troca. Entre esses compromissos estava a supervisão dos USA nas condições da industrialização local, que implicava a ingerência das empresas multinacionais.
As tentativas dos países americano-latinos e oriente medio para escapar dessa camisa de força do capital internacional desaguou nos terríveis acontecimentos dos golpes militares, que fizeram dezenas (ou centenas) de milhares de vítimas por crimes hediondos, entre os anos cinquenta e oitenta, hoje estando documentado a intervenção direta dos USA na consecução dos aparatos golpistas (Cl. Julien,
R. Dreufuss).
Como o requisito da consciência do Sujeito, como dos direitos civis, ocorre conjuntamente à industrialização e cientificização da sociedade na Europa, eis o triângulo básico do desenvolvimento. Esse tripé vale independente das condições que cada época histórica, desde o século XIX até agora, promoveu como definição concreta.
Ao que vimos, na altura dos anos cinquenta do século passado essa definição passou a abranger pelos motivos que especificamos, um estado em desenvolvimento.
Os motivos que levaram à redefinição do conceito de desenvolvimento nos anos oitenta tem a ver, naturalmente, com a proximidade do fim da guerra fria, o que efetivamente ocorreu nos anos noventa. Mas expressamente se deve à eclosão da questão ecológica, que não havia antes.
Assim foi descoberto que os países do terceiro mundo não poderiam se desenvolver plenamente, isto é, se industrializar, porque isso implicaria um gasto planetário de energia que o limite ecológico não poderia suportar. Vários encontros internacionais tem se seguido a essa assunção comunicada na primeira, organizada pelo assim designado Clube de Roma, associação dos capitalistas centrais.
Ora, como já vimos, também desde então a bipolaridade de URSS e USA se desfez, havendo a flexibilização do capitalismo internacional. Agora, a Divisão Internacional do Trabalho (Dit) não mais se estabelece pela partição de países exportadores de matérias primas e países exportadores de industrializados, mas sim entre países sede de empresas multinacionais, que detem a Reserva do Saber, científico-tecnológico para produzir, e os países em que essas empresas podem estabelecer filiais, inclusive fábricas. A industrialização local não corresponde portanto ao desenvolvimento, posto que não é autônoma, nem produzida localmente.
Assim a redefinição comporta apenas dois estados, o desenvolvido e o subdesenvolvido. Isso se tornou oficializado, como nas escolas se ensina, independente dos protestos das nações periféricas pelo direito de se desenvolverem. Respectivamente, são as nações centrais, que ficam ao Norte hemisférico (Europa, USA, Japão) e Austrália; e as nações periféricas, subdesenvolvidas, ao Sul hemisférico, o planisfério estando divido por uma linha horizontal, ao meio, designada “linha da pobreza”.
Como podemos apreender, o protesto realmente comporta uma dimensão justa, posto que são os países centrais que concentram os gastos energéticos a altos níveis do planeta, mas por outro lado uma dimensão injusta, posto que o problema ecológico não pode ser ignorado.
Ora, o conceito de desenvolvimento não abrange mais o correlato da corrida armamentista, assim como o que o lastreava como a supremacia econômico-tecnológica. Apenas especifica o status de nações que apresentam homogeneidade do seu idh (índice de desenvolvimento humano), parâmetro que mede a qualidade de vida da população (saúde, longevidade, moradia, instrução, cultura, direitos políticos, etc.). Tipicamente, um país subdesenvolvido tem idh muito heterogêneo, posto que a maioria da população não tem acesso a boa qualidade de vida, porém uma minoria ostenta altos índices.
Assim o que parece coerente afirmar, é que a “globalização”, a saber, a assim chamada “internacionalização da economia” ou exportação da fábrica ocidental para todos os cantos do mundo, é apenas a perpetuação do imperialismo por outras formas. De fato, a condição local para captação das multinacionais é de total apropriação dos setores estratégicos, além de facilitações de todo tipo, não constantes no desempenho dessas empresas no centro – a defasagem do preço da mão de obra é da ordem de quase vinte dólares no centro para um dólar na margem, à hora de trabalho, por exemplo.
Com base nesse histórico, podemos agora implementar o exame do nosso tópico, o conceito de desenvolvimento em função da reordenação das ciências responsáveis pelo diagnóstico da normalidade.
Não obstante agora já não se poder postular uma continuidade de formação sócio-econômico entre o não-ocidental e o ocidental, não há porém possibilidade de se mudar substancialmente a teoria psico-antropológica da formação do Ego como parâmetro da normalidade psíquica. A qual tem como correlato a distribuição de toda “doença mental” do adulto no conjunto das fases da formação infantil, isto é, como estado pré-egológico, porém anormal para a idade. A formação do Ego resulta não apenas no comportamento socialmente coerente, mas também nas performances cognitivas esperáveis, conforme o modelo do adulto moderno-ocidental.
Formalmente a criança tem o Ego formado na idade de três anos, mas isso significa que então seu desenvolvimento cognitivo e afetivo, que a tornará um adulto saudável, está possibilitado, caso contrário o resultado será algum tipo diagnosticável de doença mental. Ou, se a defasagem for coerente com a regularidade das próprias leis e costumes do meio social, será classificável como coerente a um meio sub-desenvolvido (“primitivo”). Ora, nesse caso, também, seja qual for o resultado, ele deve caber em alguma das fases pré-egológicas já caracterizadas como universais da formação mental.
Aqui a terminologia psicanalítica se torna a mais conveniente, e de fato instrui até mesmo a renovação do marxismo que teve lugar de Althusser em diante, ou seja, desde a contribuição de Lacan. As fases da formação infantil podem ser grosso modo divididas em narcisismo e sadismo, onde respectivamente predominam o “id”, como inconsciente pré-ordenado, e o “superego”, como ainda o inconsciente, mas dominado pela fantasia da Ordem onipotente.
A criança, assim como o neurótico, não apreendem o básico da legislação e ética civil, na medida em que estas são tecidos de leis que só valem porque refletem os mecanismos racionais de representação do consenso da população ela mesma, para quem somente a lei vale. A criança, como demonstrou Piaget, não pode apreender que se todos os participantes de um jogo decidem mudar as regras, elas podem fazê-lo porque o jogo existe apenas como o produto do que elas mesmas fazem. A criança pensa ao contrário, que a ordem existe por si mesma, que não é possível muda-la ou que a tentativa de fazê-lo não obstante a coordenação à necessidade grupal, é uma transgressão por si.
Na terminologia lacaniana, antes da formação egológica a criança se identifica com a linguagem que usa. Ela vive no “imaginário”, mas com a formação do Ego ela entra no “simbólico”, ou seja, na apreensão da lei social.
A partir de que existam regimes como o nazi-fascismo, puramente identitários, que confundem o nível público da lei com a condição privada dos sujeitos, poderíamos então considerar que são regimes que embora “simbólicos” nesse sentido lacaniano, por serem válidos intersubjetivamente, estão limitados por alguma condição do “imaginário”.
A “ideologia”, isto é, as representações fantasiosas que elidem as causas da opressão social para pseudo-justificá-las por simbolismos de status, seria não o simbólico pleno, como trânsito das leis científicas e político-racionais, mas uma limitação assim ainda que no plano dos costumes, se a sociedade é por outro lado um Estado totalmente civilizado.
As condições da limitação ao imaginário são portanto sempre negativas. Porém não são “locura” no sentido pleno, que abrange o delírio. São neuroses. A loucura nesse sentido, é a psicose, como a esquizofrenia ou a paranoia. Trata-se, ao contrário de um limite imaginário à capacidade do simbólico – que como vimos, em Lacan não é mero “simbolismo” – da perda total do Real.
Por outro lado, a criminologia se beneficiou da contribuição de Lacan, tendo este postulado que a transgressão da lei social, quando é atribuível a alguém que não está na condição do psicótico, deve acarretar a aplicação da penalidade cabível. Porque a transgressão implica a insegurança do Sujeito transgressor a propósito da existência da Sociedade. Esta, portanto, deve provar-se a ele, além de que, poderíamos ajuntar, há o compromisso do Estado com a garantia dos direitos civis, isto é, com as vítimas potenciais ou factuais.
Todas as sociedades, mesmo as mais simples ou primitivas, tem esquemas de policiamento e leis em nível social, isto é, que não se confundem com simples costumes de grupos sectários ou individuais.
A diferença importante é que na sociedade desenvolvida, o plano das leis se cinde formalmente daquele em que a decisão dos atos assim como suas consequências inere apenas ao indivíduo, ou seja, repetindo, não há uma limitação do plano das leis por uma necessidade muito grande de, mesmo não se confundindo com o plano dos costumes, estabelecer regras também nele. Um dos mais resistentes tópicos de diferenciação do civilizado e do primitivo tem sido, assim, o fato de que entre as sociedades tradicionais há uma unidade considerável de convicção, porque os planos de leis e costumes se interpenetram mutuamente, enquanto nas sociedades civilizadas, há uma ampla gama de escalas de valores oriundas de múltiplas fontes (artes, modas, religiões, valores de grupos vários, etc.), porém sempre tendo as ciências como virtualmente um horizonte regulador. Mas estas não formam por sua vez um todo ordenador.
Com base na antropologia social que estava valendo como informação empírica sobre as sociedades diversas no tempo e no espaço até meios do século passado, afirmou-se a convicção de que a democracia como cisão total de público e privado só existe de fato na modernidade. Assim, para aplicar a problemática da redefinição do desenvolvimento, tanto quanto da opressão social (capital-imperialismo), vieram sendo amalgamados todos esses fatores. Emergiu a convicção de que o subdesenvolvido terceiro mundo tem como correlato mentalidades pré-egológicas que não obstante formalmente poderem ser democracias, permanecem sem uma cisão real de público e privado. Essa convicção se expressa por exemplo em Deleuze (Cinema II), e Jameson num estudo especialmente voltado à literatura do terceiro mundo. É sobre Jameson que creio importante deter-se, na medida em que ele formulou também uma teoria sobre a pós-modernidade.
Essa teoria exibe ao mesmo tempo que já a inserção do parâmetro da renovação do marxismo, que agora inclui a teoria do sujeito via Lacan, o que me parecem anomalias notáveis, que interessam sobremaneira contudo, a toda condução possível na crítica da cultura atual.
2 ==
Como já deve ter ficado claro, a teoria jamesoniana da pós-modernidade não poderia abranger o terceiro mundo, uma vez que para ele este permanece numa condição de pré-modernidade. Mas se cotejarmos as duas teorias de Jameson, sobre o pós-moderno no Centro e o pré-moderno na margem, vemos que não se ajustam quanto à interpretação daquilo mesmo que serve de parâmetro ao pensamento jamesoniano como um todo. Trata-se da teoria do Sujeito psicanalítico.
Jameson inseriu o capitalismo tardio (late capitalismo) na formulação que encontramos habitual - ver por exemplo, O sistema dos objetos, de Baudrillard. Ou seja, agora as mercadorias são culturalizadas, midiatizadas. Para Jameson isso implica contudo que também o espaço da produção cultural foi midiatizado, isto é, englobado na totalidade pelo a priori da "indústria cultural" (business de mídia). Porém Jameson não formula a partir daí uma teoria da linguagem da mídia. Inversamente, ele se propõe analisar as produções na arte, como literatura, cinema, vídeo, inclusive a arquitetura e a "teoria" (pós-estruturalismo), para mostrar como elas estão reduzidas ao situado a priori.
O fenômeno em si dessa redução, isto é, a ligação das referenciadas produções com o a priori de sua redução midiática, torna-se portanto de demonstração complicada, mas o mais complexo a partir daí é como Jameson situa o fenômeno mesmo.
Ele considera que o que ocorre em termos de pós-modernidade pode ser diagnosticado uma esquizofrenia cultural, utilizando-se do conceito lacaniano de esquizofrenia. Na cultura o que estaria se evidenciado é a impossibilidade atual de se formularem ideologias, e para definir o que é ideologia, novamente Jameson lança mão da definição de Lacan, válida conjuntamente a Althusser.
Para estes, a ideologia, como vimos, é a formulação imaginária que um homem ou uma mulher projetam de suas relações objetivas. Eles não são capazes de apreender essas relações na plenitude do simbólico – seja como elas são definidas na legalidade social, ou como elas poderiam tangenciar as leis científicas. Jameson supõe assim estar um passo à frente de Althusser. Até aqui, todos os estados pré-capitalistas (pré-industriais) foram por Althusser, na trilha de Marx, reduzidos a formações sociais inteiramente limitadas por parâmetros puramente ideológicos, não científicos. O capitalismo é aquele estado em que a ideologia convive com a ciência, e mesmo com a legalidade racional, objetiva. Por isso ele é universalmente definido pelo marxismo como o estágio de que depende o futuro do socialismo, quando a ideologia que justifica na mente das pessoas os esquemas de exploração de classe desmoronarão sob os golpes da evolução psico-social.
Mas a pós-modernidade implica, conforme Jameson, a emergência de um estado capitalista que elide a ideologia ao mesmo tempo que perpetua as fórmulas da opressão de classe ou de status.
É preciso lembrar aqui que entre o marxismo original (séc. XIX) e a junção de Freud e Marx elaborada por Lacan e Althusser, houve um interregno em que a teoria da ideologia havia tido um outro alcance. Na metade inicial do século XX, ela havia sido adaptada às exigências do culturalismo (“funcionalismo”) então dominante nas ciências humanas. Assim como entre Gramsci e Sartre, não queria dizer apenas a fantasia de simbolismos de status, mas se projetava como uma justificativa para todas as formas de cultura não-científica que se julgava então caracterizar a essência mesma da “coesão” social na forma de valores e costumes partilhados.
O estruturalismo, desde os anos cinquenta, equivale a uma severa “recientificização” do marxismo. Em Pour Marx (a favor de Marx), especialmente, Althusser pronunciou essa total rejeição ao culturalismo. Logo depois Althusser produziu uma teoria da ideologia que a interpreta como esquemas sócio-estatais que não são diretamente expressão da base econômica, ainda que o sejam por uma espécie de deslocamento semiótico.
Ora, pelo que se observa, Jameson está ao mesmo tempo que operando na base da redefinição lacan-althusseriana, conservando a ideologia como uma necessidade culturalista sartriana.
Ele fala assim de “mapas cognitivos” como o que seria uma necessidade do sujeito “representar”, isto é, pela imaginação, ideologicamente, a realidade circundante e nela a inserção do sujeito, o que então, pelo fato da linguagem cultural midiática do capitalismo tardio frustrar toda tentativa de representação coerente, estaria impedida.
Uma vez que alguma necessidade mental básica se coíbe, o estado consequente seria a esquizofrenia.
Mas pela teoria lacaniana, qualquer coisa realmente “cognitiva” não é produzida pelo imaginário, e sim como “simbólico”. Além disso, Jameson não aquilatou o que significa o imaginário lacaniano, como o que ressaltamos acima. Isto é, enquanto estágio da formação infantil, portanto, se diagnosticado no adulto, neurose que não é qualquer, mas a que deveria ser especificamente analisada como a fase pré-egológica correspondente.
Ora, quando se trata do estudo jamesoniano da literatura do terceiro mundo, que ele utiliza como campo de prova para o que seria uma teoria da mentalidade subdesenvolvida definível em termos de pré-moderna porém já num contexto de internacionalização da economia, vemos que pelo contrário, ele aplica todo o ônus da teoria lacaniana da ideologia como fixação pré-egológica.
Estabelece que toda literatura do terceiro mundo funciona reduzindo o herói a uma alegoria da situação nacional, enquanto a teoria política local persiste na fixação de uma qualidade sancionada como “nome do país” – correspondendo ao lacaniano “nome do pai”. Jameson considera que isso é uma impossibilidade de apreender o contexto do late capitalism, como um sistema interconectado, multinacional. Porém, Jameson não liga a exploração multinacional justamente com a alienação das economias nacionais. Ao invés, ele retroage a um estágio do marxismo em que o imperialismo era ainda impensável como fator intrínseco do próprio capitalismo.
O resultado em todo caso, é o diagnóstico jamesoniano da intelectualidade do terceiro mundo numa espécie de oralidade (narcisismo). Como base da formação mental, o mais primitivo estágio infantil, isso seria contudo estratégico a uma intervenção marxista esclarecida que evitasse as aporias do Ocidente como horizonte da opressão ideológica de classe. O papel do intelectual torna-se de importância axial, pois ele deveria estar encarregado de aplicar essa intervenção na cultura. O terceiro mundo seria o contexto único ainda potencialmente revolucionário.
Porém, nem Jameson explica como seria possível, uma vez que todos estariam limitados mentalmente à oralidade, nem fornece uma coerente perspectiva que embase ao mesmo tempo as duas frentes da crítica, ao pré e ao pós modernos. Pois, ao que parece, quanto ao terceiro mundo, a tarefa seria precisamente reverter todo situamento ideológico para cientificizar-se, enquanto no primeiro, inversamente, alguma sanidade só seria recuperável se houvesse um retorno da ideologia na linguagem cultural.
Assim também poderíamos notar a contradição deleuziana a propósito. Em Cinema II, ao considerar o cinema do terceiro mundo conforme o diagnóstico da ausência do “split” (divisão) público-privado, Deleuze o explicou pela condição local do capitalismo, que ao inverso do que ocorre com os países centrais, estaria ainda num estágio de violência diretamente expressa na sociedade.
Porém segundo a teoria guattari-deleuziana do capitalismo, como expressa no Anti-Édipo, teoria que muito influenciou o meio local, todo capitalismo é o sistema psico-social do Édipo – que não subsiste fora do capitalismo (moderno-ocidental). Sendo o Édipo a formação psicanalítica que explica a superveniência do Ego emancipado.
Não sou partidária de Althusser, que considero ambíguo. Assim como em Pour Marx, o Lire le capital faz a crítica necessária ao culturalismo, porém não assimila a renovação da pesquisa empírica da ciência social, que implicaria a redefinição do capitalismo como imperialismo. Na atualidade da ciência social, o dogma de sociedades com ou sem Estado já não vige. Como salientamos, todas as sociedades tem Estado na forma de leis e sistemas de policiamento que garante seu cumprimento, não redutíveis ao plano dos costumes.
Mas quanto ao nível de organização social que até mesmo pelo tamanho da sociedade implique formalização estatal, também não mais vale o que antes se acreditava, a saber, que só existe desde os grandes impérios antigos.
Sociedades como a Mesopotâmia pré-babilônica, a dos sumerianos, são atualmente interpretáveis como Cidades-Estados igualitaristas quanto a status, não imperialistas, nem belicistas – assim como afirmam Kramer e P. Charvát.
Assim não subsiste um critério que permita distinguir essas formações sociais altamente organizadas e urbanas, de algumas sociedades muito simples que também foram consideradas igualitárias quanto a status, o que não quer dizer que não sejam estratificadas. Apenas a estratificação não perfaz necessariamente uma rede hierárquica de atribuições identitárias.
O inverso também é verdadeiro, como se mostra em Willems. Isto é, quando formações sociais imperiais como o Egito e Babilônia se tornam conceitualmente concretizadas, também já se observou sociedades simples que operam domínio sobre outras, ou sobre grupos internos.
A contradição jamesoniana se expressa numa problemática que como vemos tem se tornado complexa por terem se esgotado os meios simplistas de “classificação”.
Porém nesse ínterim de fato a cisão de público e privado tem sido extremamente comprometida, e a indagação de Bergmann, como a que inspirava sua produção cinematográfica, a propósito de quanto de fascismo (de costumes) suporta uma democracia (legal), se tornou de um alcance que talvez ele próprio não tivesse aquilatado. Ora, se hoje compreendemos um parâmetro “multiculturalista” nas humanities, isso implica que as sociedades não são apreendidas agora como todos segregados de culturas, seccionados porém entre míticas tradicionais e histórico-científicas industrializadas.
Mas sim conforme a premissa de que todas as sociedades são históricas, isto é, apreendem de algum modo suas mudanças no tempo, e tem suas linguagens culturais produzidas na multiplicidade de seus contingentes internos tanto como na intercomunicação com demais sociedades. Não subsistem questões de origem que pudessem subsumir por parâmetros da antropologia física ou arqueologia, as temáticas da antropologia social ou teoria política.
A mídia tem se espraiado internacionalmente, por outro lado, como um fator conspícuo do presente histórico. Pelo que se pode apreender na análise de David Halberstam, o business de mídia estadunidense que no século passado se tornou de importância capital na condução do imperialismo, se mostra um meio tradicionalista, com todas as características oligárquico-identitárias que se usa associar ao estágio pré-moderno como pré-egológico.
Mas se cotejarmos a linguagem da mídia local dos anos setenta e oitenta com a atual, vemos que o autoritarismo tanto quanto o fascismo contra a subjetividade aumentou enormemente. O que ocorreu é que desde os anos noventa, a mídia local está conectada diretamente a canais estadunidenses. Além disso, ocorreu a invasão informática - ninguém leva a sério a privacidade do assim designado "personal computer".
Ou seja, no fascismo se trata de superego anal (sadismo), não de id oral (narcisismo).
Paralelamente, um neoculturalismo tem se disseminado na atualidade, como projetos de reposição das premissas dicotômicas que só teriam sentido na metade inicial do século passado - quando o nazi-fascismo como subsunção do sujeito ao coletivo era não apenas disseminado no plano dos costumes, mas atuou como regime dos países totalitários que levaram à guerra mundial, aos campos de extermínio de massas, etc. O mencionado neoculturalismo atua agora sob as desculpas de estar repondo o “sujeito concreto”, isto é, situado culturalmente, na verdade opera apenas uma recusa neurótica da personalidade independente.
Na teoria feminista, como notou Jane Flex e especialmente Judith Butler, a meu ver como críticas consequentes ao duvidoso habbermasianismo de Seyla Benhabib, isto tem sido especialmente deplorável. Como se sabe e esta mesma não esconde, Habbermas condena o feminismo como política, supondo que se trata inversamente da contaminação do público por questões de âmbito privado. Mesmo assim, julgou que a concepção habbermasiana da ação comunicativa poderia ser um aporte útil à teoria feminista. Ocorre que a teoria feminista tem apenas colocado as questões do gênero numa base independente do ativismo, de modo que o que se recusa agora é qualquer dogmatismo a propósito do “ser”.
Por outro lado, a via “narrativizante” do feminino como psique mais autêntica, que Benhabib apoia como proposta de Carol Gilligan, na verdade apenas rebaixa a aptidão das mulheres – que assim seriam por exemplo melhores contadoras de estórias que médicas, teórico-políticas ou engenheiras.
Ora, o próprio axioma da mente humana como essencialmente narrativizante não é narrativo. A evidenciação dessa contradição, conforme a multiplicidade de consequências que acarreta, é o que vem solapando desde meados do século passado o ambiente “culturalista”, e precisa ser sobremodo circulada na atualidade.
Guy Sorman (“Os novos bárbaros”) resenhou o que me parecem as infelizes consequências desse neoculturalismo. Mostra ele como políticas de alguns países europeus de assimilação de imigrantes do terceiro mundo e contra a discriminação, ao longo dos anos noventa, foram prejudicadas por radicalismos tais como a premissa de que toda mentalidade europeia é um racismo embutido. O que na cena brasileira teria paralelo com palavras de ordem de grupos étnicos a propósito das prerrogativas das condições “originárias”, ao invés de se inserirem na contrariedade ao fascismo.
Ao contrário do que Sorman demonstrou estar sendo apregoado por alguns tipos oportunistas, o multiculturalismo não significa atribuir origens de progressos culturais – tal como a filosofia ou a matemática – a referenciais não europeus, o Egito ou a Índia. Isso seria absurdo, posto que quanto à filosofia, é um cultivo de questões e conceitos que não eclode senão na Grécia, mas o que se coloca em questão atualmente é que nesse cultivo os gregos não deixaram de estar expressando a sua interlocução com demais culturas circunvizinhas. E como se explicaria que os Incas na América tivessem desenvolvido as matemáticas sem contato qualquer com os hindus?
Assim esses oportunismos, que não são explicáveis sem uma boa dose de contaminação dos ativismos por teorias já muito conhecidas assim como criticadas, concedem muito à estranha inversão que assistimos na teoria do desenvolvimento.
O que desde Lacan tem se mostrado um fecundo aporte à crítica ao fascismo – não como oralidade, mas como neurose sádico-anal ou autoritarismo plenamente visível na mídia internacional (propaganda, “filmes”, música, etc.) – é uma crítica do Saber que confunde a ciência com autoridade porque, assim como se supunha que o mito fazia, pressupõe uma totalidade cognoscível do Real, independente do limite “simbólico”.
Por esse meio porém, o subdesenvolvimento não é uma condição de deficiência, mas de excesso de Saber. Tal que, do mesmo modo, é a condição de todo etnocentrismo.
Que o mundo Imperialista seja ao mesmo tempo a fonte de toda mentalidade não etnocêntrica possível, eis uma consequência demasiado espantosa para se tornar moeda corrente na teoria, mas é isso que realmente aconteceu.
A crítica do fascismo da linguagem midiática tem sido, inversamente, o mérito da critica social embasada na pesquisa empírica, como Michèle Barret demonstrou ser o caso em Stuart Hall – se considerarmos o seu estudo sobre o tatcherismo um modelo para o sistema do neoliberalismo econômico, meio do Imperialismo da escala planisférica atual. Na circunstância da expansão info-midiática que vem subsumindo toda produção cultural à assinatura da firma multinacional, a kulturcricik se investe de um caráter necessário que até aqui talvez jamais se tenha considerado vir a ter.
Assim o que resta de oportuno na análise do fascismo em paralelo às problemáticas de repressão do Ego, deve se desatrelar das classificações de conjunto para investir os dispositivos repressivos concretos que se podem localizar na imanência de quaisquer sociedades.
A pesquisa social empírica é o requisito mais importante para que se possa conhecer a realidade local, somente a partir de que a análise do discurso pode ter um sentido não imediatamente falseável.
A propósito, um foco crítico-analítico interessante se mostra tendo por objeto o que se anda praticando como “estudo de casos” porém inteiramente fictícios. A prioris totalmente ideológicos são ostensivamente transmitidos na confecção desses “casos” – especialmente utilizados nas faculdades de pedagogia e administração.
3 ==
III) Geo/egologia e Alter/egologia
O Sujeito se tornou pensável na “modernidade”, ele não havia antes. Nem mesmo o Cogito cartesiano o inaugura, pois não se coloca como o problema da construção do mundo por uma psique que assim também se auto-constitui possível atuante deste mundo. Mas tornou-se pensável, desde o devir das Ciências Humanas, não de um modo único, nem universal. E sim numa paralogia que o refrata entre um antes e um depois.
Ao mesmo tempo que o Sujeito emerge como termo de uma longa história, a da humanidade, de modo que a refração incide sobre a totalidade desta, ele emerge apenas na trajetória da episteme (ciência) ocidental, então a evolução que ele demarca é exclusiva ação de si (ocidente) na episteme. Essa paralogia subjaz à “modernidade” como discurso das Ciências em que o Sujeito é pensável e por meio dele, como sua agência mesma, o não-ainda-sujeito, o não-ocidental.
Quando enunciamos a paralogia da modernidade, porém, não agimos como numa pós-modernidade ambígua. Há uma verdadeira ruptura.
Geoegologia é o conceito que tenho proposto para apreender a modernidade como o discurso dessa paralogia. Com efeito, o Ego se torna pensável num paralelismo inquebrantável de antropologia e psicologia que se traduz na prática em cartografia geopolítica.
Alteregologia é o mesmo efeito de discurso, mas atuando sobre aquilo que ele instaura como o campo do seu domínio, a margem na sua tarefa de auto-apreender-se, ao mesmo tempo na exterioridade e na destinação da trajetória da subjetivação.
As Ciências Humanas não são assim o condenável da história ou uma falsa episteme, como para os estruturalismos. Nem são a “compreensão” possível, contudo, da alteridade radical do primitivo, como antes, para o culturalismo. Elas emergem como pesquisa empírica da pluralidade social e cultural, e essa pesquisa não instaura por si só a oposição ocidente/não-ocidental. Mas são dobradas pelo discurso que “sistematiza” esses dados, sempre cambiantes na razão progressiva da amplitude da interlocução internacional, numa rede cujos múltiplos fios se entretecem por uma necessidade de ordem ulterior.
Qual seja, a de integrar os dados numa explicação da pressuposta diferença instaurada na prática, no presente da trajetória e que a esta preenche, como o sentido da interlocução. Esta não é apenas contato, é “civilização”, ordem e progresso. A prática sendo a da exploração colonial-imperialista, se traveste, inversamente à subtração material, de acréscimo espiritual. A sistemática desse discurso é bem conhecida portanto, traduzindo sem trair o pretexto colonial-jesuítico, mas quando se trata de Ciências (humanas) e modernidade – tautologicamente pós-classicista – não se trata mais de mito ou transformação “sur place”, de um só golpe e para toda eternidade, contanto que a natureza selvagem não se contamine por nada além da civilização cristã. Não há no classicismo/barroco uma cultura suposta dever-se apreender. A salvação é ou não é, fora dela não há a variação, há o demoníaco e o nada. Ao contrário, a civilização da Ciência é a entrada na história, o progresso em relação ao mito a que a margem se devota como ideologia. A ideologia é primeiramente a conjuração da História e quanto a esta, é a primeira instauração das humanities, em inícios do século XIX. A “civilização” se tornou Repetição da trajetória na margem, “possibilitada” pela prática imperialista.
Ao longo dos duzentos anos recentes, o discurso vem mudando, singularmente. À emergência da História como ciência, junto com a psicologia romanticista, se sucedeu a emergência da sociologia positivista e antropologia evolucionista. A história, que tivera a missão de operar o primeiro paralelismo, agora não mais explicava o progresso, ela mesma devia ser explicada.
Após o que, na metade inicial do século XX, ocorre a novidade da ciência social in loco, como pesquisa de campo, e a linguistic turn peirce-saussuriana. O que instaurou o discurso culturalista do funcionalismo. Em meios do século passado, a teoria da comunicação e a cibernética ensejaram a mutação da linguistic turn na metodologia estrutural, que o pós-estruturalismo não mudou essencialmente, apenas modulou para ao invés de uma só, como o sistema de parentesco (Levi-Strauss), o Édipo (Lacan) ou o modo de produção (Althusser), instituir várias fórmulas que seriam a articulação dos elementos de qualquer “cultura” como “escritura” (Derrida), “memória virtual” (Deleuze-Guattari) ou “discurso” como a priori do saber, poder ou sexualidade (Foucault).
Essas mudanças se conjugam a dois fatores. Ora a progressão da informação da margem, conforme ao incremento da penetração imperialista, ora às mudanças na forma dessa penetração. À propaganda da livre iniciativa que tanto dependeu da remoção dos obstáculos monopolistas do pacto colonial se sucedeu o novo monopolismo da exploração imperialista, protagonizado pela revolução industrial inglesa, e depois ocorreu o alastramento desse monopolismo transformando nações europeias em potências, na instância do “neocolonialismo”.
A hegemonia norte-americana do pós-guerras, num cenário de movimentos belicistas por emancipação na margem é concomitante aos estruturalismos, mas o lance recente da “globalização”, monopolismo em escala sem precedentes, avassalou os princípios mais caros ao discurso geoegológico tais como os que permitiam ainda, não obstante todas as mudanças, manter o princípio de que o capitalismo era intrinsecamente a livre iniciativa e por aí, o suporte material da transformação da sociedade liberal em que o Sujeito veio a ser pensável, em que a humanidade teria, assim, se auto-realizado. Nesse princípio subtendera-se sempre que o progresso tecnológico secundava a realização da consciência de si como a emancipação subjetiva, o que atualmente, pelo avassalamento da privacidade na dominação info-midiática já não é possível afirmar.
Na verdade, obviamente não é o capitalismo, se redefinido como imperialismo, que instrumenta a transformação social. Pelo contrário, é a soma de intervenções ditatoriais, monopolistas, contrários a ela. Na prática o capitalismo é uma soma de banditismos que se alastram contra os direitos humanos constituídos, e nesse sentido é também o contrário da “livre empresa”. Porém como imperialismo só pode se amplificar a partir da dominação cultural que o traveste de agência civilizadora.
O Sujeito vem a ser virtualmente pensável na Europa desde que as “grandes navegações” instauram uma visibilidade do aborígine como da intotalização do Saber disponível . Assim a sociedade liberal começou a ser pensada não por uma retomada da Antiguidade, mas pelo fato dessa existência incondicionada, o substrato da igualdade civil pensável, em Locke e Rousseau.
Mas o Sujeito não é realmente pensável, nem a Sociedade para lá dos limites identitários de um contrato comunitário, senão quando a existência incondicionada na margem deixa de ser “natureza” e se torna “cultura” a partir de ter se feito agente histórico de sua emancipação pós-colonial.
Aqui não há mais um dualismo contraditório como era o classicista, entre pensamento e extensão mas sendo o inteligível somente o intelecto/Deus, assim como entre natureza e civilização mas sendo somente inteligível a civilização. As ciências da natureza, que emergem entre Renascimento e classicismo/barroco, encontraram elas próprias fomento e justificação “empirista” a partir dessa visibilidade não dedutível.
Ao invés, desde a modernidade há uma duplicidade real, do egológico e do pré-egológico, ou ao menos da consciência de si e do que resta apenas potencial a ela. As culturas devem ser não apenas conhecidas na sua pluralidade, mas dobradas pela explicação da cisão da consciência de si na História e como realização do pensamento histórico – depois sociológico, depois estrutural.
Quando porém se faz sociológico, o positivismo integrando o evolucionismo darwinista na ordem explicativa do discurso, a visibilidade da margem deixa de ser equacionável como fator determinante na rede dos acontecimentos da mutação cientificizante. É o capitalismo, a revolução industrial europeia, que aglutina agora toda causalidade comunicada como razão de ser objetiva à história. Também muda o objeto visível. O pré-egológico não é mais o indivíduo, sãs as hordas primitivas puramente instintivas, sem consciência de si, qualitativamente diversas – promiscuidade/brutalidade primitivas.
O discurso Geoegológico se instaura assim, como e com, o que podemos designar a Assimetria Internacional do Capital. A Alteregologia se efetua na margem como auto-posição não do Sujeito, mas do Agente local da Ciência, que engendrará o Sujeito, a cada novo lance do discurso como o agente de sua aplicação, como o introdutor da História. O intelectual aqui não tem por tarefa o que o Ocidental realiza como o conhecimento da “margem” em que ele está, em que ele consiste. Ao contrário, o absurdo do discurso o instaura como o agente do progresso oriundo desse conhecimento, desse discurso, refeito em receita, para efeitos de aplicação metódica do “desenvolvimentismo”. Aquilo que a pesquisa empírico descobriu como a heterogeneidade cultural em termos de uma ciência pré-discursiva, é o que menos importa ao Alterego do Centro, ou, por outro lado, é o que para ele se enuncia como o enunciado do seu atraso, do que ele, como intelectual porém, não é, já que ele não é sobretudo o primitivo se ele é o intelectual ocidentalizado.
A História aqui não se faz como a pesquisa do que existe na processualidade do que existiu no passado, mas, inversamente, como o que deve ser introduzido como a forma forma do futuro, da modernidade.
Lacan teve o mérito de reinterpretar Freud na ênfase do que seria um inconsciente cujo horizonte “simbólico” é mais como uma questão posta a todo ente humano, do que apenas um a priori ordenador do sentido. A questão é o traçado da alteridade possível. Trata-se do que sucede ao sadismo anal como a precipitação daqueles acontecimentos que na infância devem ocasionar a formação do ego.
Em psicanálise, o Édipo, o envolvimento com o pai e a descoberta da “lei”, enseja o que se designa “castração”, a descoberta pela criança da desigualdade dos gêneros sexuais a partir da constatação da feminilidade da mãe, o que é visado como ausência da virilidade (falo). O inconsciente não interioriza realmente essa descoberta, e assim a oposição de inconsciente e consciente se perfaz.
Porém se ao inconsciente a mão fálica continua sendo real, o que ocorre é a permissão dessa oposição. A qual, conforme Lacan, é suporte do a priori assimétrico dos gêneros sexuais, tal que a sexualidade se interpreta quase-naturalmente como o desejo masculino, e é uma evolução real ter-se aportado ao estruturalismo e à psicanálise, onde todos os deslocamentos como assimetrias no campo simbólico, reduzidos à expressão dessa assimetria fundamental, afinal se descortina como a lei do desejo e a conjuração dos seus efeitos indesejáveis como tais deslocamentos.
A desrepressão dos gêneros de sua camisa de força binária, de sua coisificação ambígua posto que o dois só é o um, seria a fórmula da desrepressão do próprio desejo que se transmutaria na instauração do espaço do político – não o da “ordem”, mas da legislação negociada por e para os sujeitos legislantes conforme a transparência das instituições representativas.
Porém o que notamos pelo exposto é que o próprio enunciado da assimetria a priorística do gênero emerge numa necessidade explicativa totalizante. A família prototípica do enunciado edipiano não pode ser outra que a moderno-ocidental, mas quanto às demais, elas não podem ser pensadas na imanência da pluralidade multicultural, como o que coloca à observação as questões relativas à sua variedade. São apenas a forma da antecedência, o rascunho canhestro, daquilo que objetivam como a união do homem e da mulher com virtuais objetivos procriativos, e que é realizado perfeitamente na família nuclear moderno-ocidental.
A análise do discurso que vem se praticando recentemente deve muito a Lacan, enquanto tem se depurado de vários pressupostos totalizantes para manter-se apenas como análise da construção das assimetrias que cada discurso visado efetua na sua prática histórica – étnico, do gênero, de status (“subalternidade”).
O importante nesse tipo de exame é que não apenas a assimetria é construída na ordenação de uma opressão ou discriminação, mas como o que institui a própria discursividade possível da qualidade que viria a se posicionar como o oprimido ou discriminado.
Ora, o que tem se argumentado contra isso é que a crítica da ideologia num parâmetro objetivo que a visaria numa preensão a forma objetiva da exploração (econômica), assim se torna impossível.
Como vimos, o conhecimento da pluralidade sócio-cultural já não autoriza supra-ordenações dos componentes múltiplos da pesquisa tais como ainda era necessário a Lacan e até mesmo aos pós-estruturalistas, na forma de classificação das sociedades. Mas realmente algo importante parece ter se tornado inapreensível paradoxalmente, num momento em que esse algo, como a exploração econômica se tornou de inesperada magnitude planetária.
A Geoegologia e Alteregologia não são supra-ordenações que pudessem funcionar em relação aos demais contextos construtivos assimétricos, mas são princípios epistemológicos que tem funcionado, ao longo da modernidade, como a priori em muitas frentes conceituais de que depende a análise daquelas construções. Elas instauram portanto um nível da análise que repõe a problemática da exploração em nível porém de dominação cultural “para lá” da ideologia.
Se o que a consciência faz é estabelecer relações, e se o que descobrimos é que a paralogia do fundamento-suplemento se mostra uma constante imaginária ao invés de uma álgebra simbólica, não obstante essa paralogia não resta como justificativa, o fundamento do vir a ser da própria consciência crítica possível.
Inversamente, a escuta dos enunciados em que a paralogia se constitui se torna uma pista importante para entendermos em que a “modernidade” foi ela mesma uma rede de pressupostos da dominação, e não a instauração do diferencial único do “progresso” humano.
Assim os argumentos que visaram a pós-modernidade como “liquefação” do que antes era sólido e consistente em termos de crítica política, se mostram constituir desses pressupostos – além de um grau de ambiguidade sem precedentes no discurso.
Por exemplo, quando Eagleton advoga a causa da universalidade ética para defender que a colonização afinal elide práticas primitivas brutais, típicas do fascismo pré-egológico diríamos, que apenas não sem vícios se poderiam justificar como “cultura” não-ocidental valendo a título próprio, não se lembra que na Europa ela mesma a transformação jurídica da modernidade implicou elidir práticas feudais brutais. Assim como a inquisição cristã torturar e queimar vivos hereges ou acusados de bruxaria, ou o direito do Senhor sobre a noite de núpcias da serva virgem.
As Ciências Humanas , na sua recente instrumentação “operacional” (empírica), tem se libertado do, ou mais decisivamente desconstruído o, a priori do discurso geo-alter-egológico, visando a emancipação real do Ego na cultura viva. A pesquisa operacional ou efetiva excedeu pelo conteúdo os acalentados pressupostos, mas se o a priori assim só ficou impresso na circulação discursiva da mídia (não “científica”), comunica-se agora, ao inverso, desta para esforços acadêmicos de reassegurar um domínio.
Até mesmo a psicanálise lacaniana, ao invés de ter sido investida para uma reestruturação em face do novo parâmetro das informações – e especialmente a emergência da “textolinguística” – foi recentemente utilizada para um “recentramento” considerável.
Zizeck, ao que parece assim como Eagleton e Jameson confundindo pós-estruturalismo com pós-modernismo sem atentar para o fato de que os pós-estruturalistas rejeitaram em peso algo como pós-modernidade, esgrimiu contra Derrida o seguinte argumento. A ciência, como a relatividade, é “Real”. Assim não haveria uma variação possível da estruturação psíquica que não fosse uma impossibilidade de apreensão da realidade.
Porém para o próprio Lacan, a ciência é “simbólico”, não há apreensão direta do Real intotalizável assim como as coisas elas mesmas, mas como ciência objetiva o que há é uma tangência ao Real, na acepção de um movimento não meramente fantasioso. De fato, podemos notar que não é impossível pela própria estruturação da ciência enquanto não dogmática e apenas teórica, que a relatividade seja ultrapassada um dia por uma teoria mais abrangente – mas assim, como se poderia estipular que a teoria é “o” Real?
Um outro sintoma do recentramento, a operação geoegológica porém atuando num contexto em que a própria ciência não o autoriza, é ainda mais generalizado. Trata-se da confusão do “cientificismo” com Iluminismo. O “cientificismo” é o preconceito que elide as próprias ciências humanas como tendo algum objeto autônomo posto que segundo se pretendera a ciência objetiva teria que ser bastante para assegurar todo ônus explicativo de qualquer fenômeno pensável.
Porém essa pretensão não foi a do Iluminismo enquanto um movimento pré-moderno, classicista, que não tinha qualquer oposição de ciência e cultura pois não movia-se senão na universalidade pré-subjetiva do “intelecto”.
É o “positivismo” que devemos atribuir como o contexto do discurso cientificista, e de fato ainda hoje a moldura é fornecida pela “escola analítica”, o que se designa atualmente o “neopositivismo” oriundo do Círculo de Viena, que atualizou em inícios do século XX os parâmetros do cientismo oitoscentista. O positivismo realmente instaurou, como acima vimos, o sócio-evolucionismo no sentido mais forte desse termo, inclusive porque atuou num meio científico ignorante da genética, por isso interpretando a evolução em termos racistas.
A uma crítica “pós-moderna” porém ainda muito ambígua e equivocada, do cientificismo como Iluminismo, respondeu uma defesa igualmente equivocada da ciência como Iluminismo, que até mesmo estendeu sob a designação de “ciência” a mera tecnologia da consumação capitalista à exemplo de Pierre Levy.
Assim em todo caso, não seria possível tematizar a repressão cultural instaurada pela linguagem da mídia enquanto homogeneização imposta de valores e padrões: jargão inglês, desletramento programado por redução dos gêneros de linguagem a consumação de business de mídia, alta concentração de classe devido ao preço e imposições de gastos do “computador”, domínio de grupos sobre a privacidade, óbvia coisificação dos gêneros sexuais numa escala imprevista para o que já alcançou em termos críticos, etc.
Na mídia como indústria cultural, o que tem circulado é limitado pelo “tipo”, identitário, não há possibilidade da expressão da personalidade em devir ou sujeito. Por exemplo, na produção do cinema comercial recente, a biografia de Pu Yi, o imperador chinês capturado pela revolução do maoísmo, foi altamente estetizada.
Porém o filme só mostra nessa estetização a parte da biografia que Pu Yi consagrou à anterioridade da captura. O mais importante do relato de Pu Yi é o que acontece depois.
O que vemos é que a opressão de que foi vítima não foi o regime maoísta que perpetrou, mas sua própria família, sua corte que antes lhe era a própria devoção, ansiosa agora para lograr cumplicidade do regime. Pu Yu realmente realiza uma conversão notável, tendo se formado paramédico e cidadão comum, após tamanhas desventuras, o desfazimento de suas mais caras fantasias a propósito dos sectários.
O devir, a atuação do sujeito histórico-político, as mudanças, as adaptações e as resistências, nada disso é captável num “tipo” identitário, que só tem a reproduzir sua exemplaridade virtualmente repetível, como ao que se limita fabricar a tela da indústria cultural midiática.
A censura pura e simples da verdade para efeitos de editoração dos mass mídia foi abundantemente reportada por Halberstam, e inclusive com relação à China.
Os norte-americanos foram diariamente alimentados com falsas notícias do Times, a propósito do recuo das tropas revolucionárias, e só puderam se conscientizar do que estava realmente ocorrendo quando a notícia da revolução não pode mais ser postergada. Isso porque o proprietário tinha laços com a China pré-comunista, mas de fato o mesmo proprietário do Time Life operou como severo censor de qualquer notícia que propiciasse a opinião pública contra a persistência dos USA no Vietnã.
Os clãs do business não atuam somente visando vantagens pecuniárias, mas por fortes motivações tradicionais, protestantes, identitárias.
A adequação da legislação e práticas que coíbam domínio do mercado e propicie incremento das publicações em nível da heterogeneidade popular ao invés do dirigismo do business seria o mais importante a meu ver, assim como circular a concepção e que a Internet é apenas meio que qualquer um que tenha acesso utiliza para impressão de dados, não necessariamente a fonte da verdade. A aptidão a avaliar os conteúdos não vem da própria internet, mas do letramento, a escolarização e liberdade de expressão.
Os estudos culturais são formas de crítica do discurso assimétrico em quaisquer de suas expressões, não apenas dos gêneros letrados. Não são, como vem se praticando no meio local, acadêmico-midiático, “populismo” ufanista que celebra qualquer bobagem que circule apenas por ser em escala de massas, e que desqualifica o compromisso do Estado com o letramento ou escolarização em termos de contato com os gêneros de linguagem “cultos”, formação das capacidades de crítica e compreensão da linguagem, bem como qualificação da mão de obra e consciência política da cidadania em termos da cisão de público e privado.
A servidão tecnológico-midiática mudializada não é uma realidade ignorável de fato, porém se preserva-se a humanidade mesmo na iminência espantosa de sua mecanização em nível biológico (máquinas neurais, engenharia genética, etc.), o que precisamos é a reposição da organização social contrária à desumanização que assim se enuncia conjuntamente ao descalabro contra a natureza – o que inviabiliza a própria existência planetária.
A Geoegologia como teoria desconstrutiva visa as articulações/ mutações do discurso histórico-geoegológico em termos de modulações do “objeto” margem sob uma limitação porém não-relacional mas somente opositiva ao “sujeito”, decorrente como auto-posição do próprio discurso que o estabelece como Centro, agência civilizadora/ cientificizante /racionalizante.
Assim não seria impossível que as mutações se concretizassem como fases da construção do Sujeito limitado porém ao horizonte freudiano – não apenas aquele que está mentalmente ajustado à sua realidade biológico-sexual, mas aquele para quem a objetividade é o binarismo do sujeito-objeto ao invés da historicidade da linguagem possível da ciência, onde o que há é a pluralidade teórica – ou como Myrdal expressou com relação à economia, não se trata de perguntar “o que é economia”, mas sim de se relacionar numa problemática que envolve história dos conceitos, práticas, questões, sempre num situamento político, isto é, não como se possivelmente formal, mas já interpondo os posicionamentos do sujeito desse envolvimento.
A oralidade romântica, o anal-positivismo, a formação fálica funcionalista com sua ambiguidade característica e metódica (círculo hermenêutico), a genitalidade estrutural, servem a uma possibilidade de leitura dos fenômenos teóricos e estéticos relacionados a esses horizontes a priorísticos. Mas sobretudo devemos notar que a genitalidade estrutural não correspondeu à pluralidade alcançada, pelo contrário, ensejou um recentramento, uma neoanalidade como se fosse possível um discurso do pai que a criança veio a ser.
Fora da ciência, por certo, mas não menos pervasivo, nem menos generalizado, seria preciso voltar ao pré-discursivo da pesquisa, para que os limites do discurso fossem levantados.
=========